
Governar com o STF é gostoso demais. Veja o caso das decisões recentes de Flávio Dino sobre direcionamento de emendas parlamentares por Valdemar Costa Neto e Eduardo Cunha. Desde que mundo é mundo e o sistema é proporcional, lideranças eleitas pelas mãos de caciques partidários — ocupem ou não cargos de dirigentes — devem seus mandatos a esses caciques, que atuam politicamente por meio desses eleitos com o objetivo de direcionar recursos públicos para currais eleitorais que garantam a renovação de mandatos e a conquista de novos.
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Flávio Dino e sua Polícia Federal resolveram criminalizar essa parte da política, mas só essa parte e só em relação a alguns agentes políticos indesejáveis. Valdemar preside o maior partido de oposição, que garante estrutura para a eleição de Flávio Bolsonaro, maior ameaça ao quarto mandato de Lula. Cunha se tornou peça-chave em Minas Gerais, para onde levou sua rede de rádios gospel, tem feito um périplo pelas igrejas evangélicas locais e atraído dezenas de prefeitos para sua base eleitoral, fortalecendo o voto anti-petista.
Ambos, Valdemar e Cunha, tiveram milhões em bens bloqueados, mesmo sem que a PF de Dino tenha encontrado qualquer indício de desvio de emendas, seja para ONGs amigas ou obras superfaturadas — parte desses recursos sequer foi executada. O ministro adota o mesmo princípio do pré-crime, popularizado pelo filme Minority Report, com Tom Cruise, e também adotado por seu colega Alexandre de Moraes em casos de censura e banimento de redes. O sistema punitivo de Dino detecta, processa e pune indivíduos antes que eles cometam o ato ilícito.
Conhecendo a política e os políticos brasileiros, quem não concordaria com essa ideia, não é mesmo? Mas as investigações do ministro invariavelmente só buscam o lado oposto do espectro político. Não há sequer um único petista sendo investigado, muito menos sendo bloqueado em seus bens. Em dezembro de 2024, uma reportagem da Piauí já mostrava como Lula era cúmplice dessa orgia orçamentária, inclusive com seu líder José Guimarães, assinando ao lado de outros 16 líderes parlamentares, ofício com a indicação de emendas bilionárias sem autor.
Hoje, Guimarães é o ministro-chefe de Relações Institucionais, responsável justamente pela negociação dessas emendas. Só nos 3 primeiros anos do atual mandato, o presidente da República empenhou o recorde absoluto de R$ 127 bilhões em emendas. No primeiro semestre deste ano, outro recorde: R$ 34 bilhões. Tudo negociado pelo governo com o Congresso! Se comparássemos a farra das emendas à célebre Noite das Astronautas, Lula seria Daniel Vorcaro; enquanto Dino se assemelha a Dias Toffoli, resistindo a reconhecer sua suspeição como relator.
