
Se Michel Temer fosse cientista e não advogado, eu o compararia com o Dr Victor Frankenstein, do romance de Mary Shelley, o homem por trás da criatura que ganha vida a partir da união de partes de outros cadáveres. A centelha da vida vem de um impulso elétrico com a força de um raio. Assustado com o que criou e a destruição que provocou, porém, Victor dedica os últimos dias de sua vida perseguindo seu monstro.

A comparação aqui é apenas estética. Alexandre de Moraes é uma criatura formada por partes do MDB, do PSD, do PSDB e do PT. Mas diferente da criatura da ficção, o ministro-monstro não é rejeitado por seu criador, mas acolhido, alimentado, defendido publicamente. Enquanto Victor tinha vergonha, Temer tem orgulho de sua criação, a ponto de virar uma espécie de sócio de suas empreitadas.
Sim, o Brasil todo sabe que o ex-presidente se beneficiou da relação promíscua de Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro, embolsando R$ 10 milhões na busca de investidores árabes para salvar o banco. Foi Temer quem abriu as portas de Dubai para o dono do Master. Os dois viajaram juntos no início de novembro de 2025, jantaram com o sheik Abdullah bin Rashid Al Mualla e fecharam um pré-acordo para aportes bilionários em parceria com a Fictor.
Vorcaro foi preso semanas depois justamente quando tentava embarcar para a capital dos Emirados Árabes Unidos para a assinatura final. Coincidência ou não, foi para lá que Moraes e sua esposa viajaram cerca de um mês depois da prisão de Vorcaro. Se investigar bem, talvez a PF de André Mendonça puxe o fio de uma meada que explique o artigo de Temer ontem no Estadão. Sem corar, o ex-presidente mistifica as acusações contra seu pupilo e sugere que é tudo fruto da polarização política, do “nós contra eles”.
Sem pudor, Temer tenta criar equivalências entre Moraes e Mendonça, questionando o “clima de beligerância” que teria tomado o STF e o risco oriundo disso. “São, ambos, juristas do maior porte, capazes de entender que as soluções dadas pela Corte Suprema se ancoram na Constituição, mas tendo sempre uma preocupação de natureza política com a unidade do país e com a preservação das instituições.”
É risível, mas compreensível.
Temer está se pelando de medo de que uma investigação contra Moraes avance sobre si próprio, considerando que agora o Brasil sabe que, enquanto o ex-presidente abria mercados para uma solução financeira para Vorcaro, o ministro tentava segurar investigações e impedir uma medida do Banco Central. É inevitável que, durante esse inquérito, venham à tona mensagens dele com o banqueiro e com o próprio ministro.
Voltar para a cadeia nessa altura do campeonato não está nos planos do emedebista, considerado por muitos a reserva amoral da República do Cinismo. Seria irônico, considerando que foi justamente a sua prisão, em março de 2019, que despertou a ira de Moraes contra Jair Bolsonaro, o cerco à sua gestão e a infernal perseguição por meio do insidioso inquérito das Fake News, que agora ele tentou usar contra Mendonça num ato absurdo e desesperado.
Quem não leu o artigo, nada perdeu. A única coisa que presta ali, no sentido pedagógico, é o parágrafo em que Temer arrota garantismo. Diz que, num estado democrático de direito, é preciso dar o benefício da dúvida, respeitar todas as fases de uma investigação, assim como os atos processuais e o trânsito em julgado, para evitar julgamentos precipitados contra quem quer que seja. Tudo o que Moraes, sua criatura, negou a Bolsonaro, a seus ministros e assessores, e aos milhares de cidadãos colhidos pela farsa do 8 de janeiro.
Quem diria que estaríamos de novo diante de uma tentativa de “estancar a sangria”, como disse, em 2016, o então ministro do Planejamento de Temer, Romero Jucá, ao também se desesperar diante do avanço da Lava Jato?! A história brasileira também se repete como farsa. Basta ver as reportagens e análises da mídia do pix, dos últimos dias, para perceber o mesmo ‘modus operandi’ de tentar varrer a sujeira para debaixo do tapete. O artigo de Temer, porém, é uma vassoura velha, com cerdas tortas.
